Reescrevendo a história.
Todos estavam ansiosos pelo dia da mudança.
Afinal tudo já estava decidido. Meu Pai sempre irredutível, só pensava mesmo em
mudar para o Sertão desconhecido. Janeiro de 1959. Verão de pouca chuva, com a
proximidade do dia de São Sebastião, padroeiro de Dionísio, ficou decidido que sairíamos
após a comemoração, logo no dia seguinte. À essa altura, tudo já estava pronto,
embalado. Estava na cidade o “Gran Circo Europeu”, fomos assistir ao
espetáculo, talvez por sentir seria rara uma oportunidade igual. Mudança mexe
com tudo, inclusive com o emocional, revira tudo, seleciona e que pode levar, o
que tem que ser descartado. Quanta coisa que carrega forte carga de recordações
é deixada para trás. Tudo acertado, o esperado dia chegou. Complicado os meios
de transporte. Só existia caminhões de pequeno porte, tratou um, mas o dono enrolou
o dia todo e no final não pode. Chegando à noite um vizinho que possuía um
chevrolet já bastante velho animou pegar o frete, apesar de ter que passar em
cidades, mas que aquela hora poderia se aventurar. Tudo acomodado na
carroceria. Chegou a hora da grande partida. Quando
o silêncio pairou sobre a cidade e tudo parecia dormir, arrancamos. Eram vinte
e três horas e vinte cinco minutos. O ronco do motor parecia abafar o clima de
melancolia e ao mesmo tempo de esperança. A antiga igreja matriz com seu
aspecto solene parecia abençoar; breve também ela cederia seu lugar para outra
mais moderna. As últimas casas, a capela de Santo Antônio e Dionísio começou a
ficar para trás; a sinfonia das águas da cachoeira do ribeirão quebrando o
silêncio, a estrada serpenteando as encostas íngremes demandando o alto da
serra das Posses; lá chegando, um último olhar, o cruzeiro iluminado, no morro
que domina a cidade, destacando-se no meio da escuridão da noite como uma visão
de fé e esperança; foi desaparecendo, desaparecendo como se um negro véu o
fosse cobrindo gradativamente; como se uma página do livro se dobrasse, um
capítulo se encerrasse e outro tivesse o seu começo...
De madrugada chegamos a
João Monlevade. Meu pai, com a experiência de muitas mudanças, providenciou o
despacho pela Central do Brasil. Uma máquina de costura Singer antiga, uma
bicicleta Bristol importada e já bem velha, caixotes de roupas, mudas de
plantas e ferramentas além de vasilhame. Embarcamos rumo a BH, o trem
serpenteava por entre vales e serras; a cada estação observava a altitude, já
passava muito de mil metros, uma paisagem maravilhosa enchia as vistas. Minas
Gerais é mesmo encantadora. As cidades históricas enchiam-nos de curiosidade,
principalmente Santa Bárbara, Barão de Cocais, Caeté e Sabará. Ao aproximar de
Belo Horizonte, na estação de General Carneiro, notamos que a nossa bagagem
estava sendo descarregada para ser guardada em outro vagão. Não esqueço que
alguém, passageiro do trem, ao ver aqueles caixotes disse: “deve ser mudança de
algum baiano”. Coitado do nordestino pau-de-arara parece ser símbolo da
retirada. A capital era um encanto de cidade. Com amplas avenidas e
muita beleza, os veículos circulavam tranquilos sem o tumulto do trânsito de
hoje. Passeamos a noite, pernoitamos e de manhã embarcamos para a parte mais
desconhecida da viagem rumo às barrancas do São Francisco. Ao tomar a direção
do sertão, uma bifurcação da linha e uma pequena placa indicando “para o
sertão”, a vegetação começa mudar, as grandes serras começam dar lugar a uma
topografia mais plana. Sete Lagoas, Curvelo, Corinto e adentramos no mais
autêntico sertão. A história continua...