segunda-feira, 6 de abril de 2026

Casos da Novilha Brava

Os nossos principais contadores de casos são os saudosos vaqueiros. Como era bom ouvir os relatos mais interessantes da região. Infelizmente quase ou todos já faleceram.

Sô Emídio, respeitável vaqueiro conhecia muito a região. Contava que morou por trinta anos no retiro da Novilha.

Alguns casos contados por ele:

 

-Sacrilégio.

Numa Sexta-Feira Santa, um vaqueiro pede à esposa para matar e preparar um frango para o almoço. A mulher horrorizada vê-se obrigada a obedecer ao capricho do marido. Pega o frango, prepara e cozinha muito a contragosto. Quando tudo pronto, chamou o vaqueiro para almoçar. Como era o costume, colocou as panelas no rabo do fogão e ficou observando estupefata. Para o danado parecia que seria o melhor frango de sua vida. Serviu o prato, sentou-se no degrau da cozinha e de repente, fixou o olhar para a laranjeira do quintal e paralisou-se. Levantou e cabisbaixo colocou o prato, sem mesmo tocar na comida. Muito sem graça, tomou o canivete e aproximou-se do portal da despensa e traçou um cruz. Sua mulher atônita observava tudo calada. O resto do dia ficou mudo sem dizer sequer uma palavra. Teria tido uma visão? Ninguém sabe. O que sabemos é que a mulher deu graças a Deus, afinal ele ia cometer o maior sacrilégio, comer carne na Sexta-Feira Santa.

Sô Emídio contou o caso com detalhes, mostrou onde o vaqueiro sentou-se e a cruz mal traçada no portal da despensa.  

Pé de Garrafa

Nos tempos da companhia, os ingleses mandavam fiscais para verificar se estava tudo em ordem, sem desvios ou outros problemas. Certa vez chegou um fiscal inglês, pessoa muito importante e queria que os vaqueiros fossem com ele pelos pastos para uma vistoria rigorosa. Muito discretos e calados, embora muito sabidos, bolaram uma para cima do engomadinho. De manhã arriaram a tropa, montaram o tal inglês num cavalo manso e foram para o campo. Já tudo combinado, foram para as bandas do Açude Velho. Naquele cascalho fininho, de repente chamaram a atenção do forasteiro para um rastro diferente, do tal pé-de-garrafa, monstro perigoso, o qual temiam encontrar. O fiscal pediu imediatamente que retornassem ao retiro, pois temiam encontrar o tal bicho. Deu por encerrada sua missão de vasculhar a invernada. À noite, a turma foi gozar do fiscal e da estratégia para ficar livre do importuno.

O Açude Velho é onde hoje tem a barragem do Sérgio.  

O Capão do Meio

Já não existe o Capão do Meio, e poucos sabem de sua existência. A vegetação com a interferência humana mudou a paisagem. Ficava no fundo, cercado pela vargem e o lagoão. As grandes enchentes cercavam tudo e muitas vezes o gado ficava ilhado no Capão. Conta Sô Emídio que quando isso acontecia, um grupo de vaqueiros destemidos, aproximavam da cheia, penduravam os arreios nos galhos, arrancavam a própria roupa e também penduravam, entravam naquele mar cheio de perigos e chegavam ao Capão. Aboiavam o gado que, entrando na água rumavam para a terra firme, sem a perda de nenhuma rês. Causa admiração a audácia dos peões e a perícia dos cavalos.

 

-A misteriosa novilha brava

Conta-se que nos campos do entorno existia uma novilha misteriosa. Os vaqueiros costumavam avistá-la nas vargens junto ao gado. Tentavam trazê-la até à porta, mas em vão. Quando faziam o cerco para tocá-la, rompia o cerco e desaparecia nas campinas. Segundo contam, a novilha só tinha três pernas, mas corria feito vento. A verdade é que as lendas vão se consolidando, muitas vezes quem conta um conto, acrescenta um ponto e por aí se vai. Seria essa a origem do nome de Novilha Brava? Pense você mesmo.

O Marruá  

O Senhor José Ferreira de Almeida, velho vaqueiro dos tempos da Companhia, contou-me muitos casos. Entre quais o do marruco bravo. Certo dia foi escalado para trazer à porta um marrueiro muito bravo que estava perdido no Baixo Gado Bravo. Quando deparou com o bruto tentou tocá-lo sem êxito, entrou para dentro da empuca e não saiu mesmo. Quando não havia mesmo recurso, sacou do trinta e oito e foi no meio da testa e adeus valentia do bicho. Os urubus deram conta do resto. Disse-me que restos de ferragens de arreio encontrados no cerrado, são acidentes com vaqueiros. Até cruzes haviam perdidas no mato.

A mula pescadora

Conta-se que no Retiro da Novilha Brava, lá pela década de 50, havia uma mula ruça, muito rebelde, daqueles animais difíceis de colocar o cabresto. Quando amarrada, tornava-se um excelente animal, suportando longas caminhadas e lidas por esses campos. Segundo um vaqueiro, que por sinal também gostava de uma pescaria, a mula possuía uma qualidade excepcional: era pescadora. Quando à tarde resolvia apanhar uns peixes, o nosso amigo arreava a besta e punha-se a caminho da lagoa Ferradura, àquele tempo escondida por espessa vegetação. Havia uma bebida, local preferido para jogar o anzol, ou melhor, aproximar a pescadora. Numa habilidade fora do comum, aproximava o focinho na água devagarzinho, uma piranha bocava e a mula estacava para trás de repente e lançava o peixe longe. A cena repetia-se tantas vezes até que o vaqueiro, pacientemente, descia da montaria e ajuntava com cuidado as piranhas, que a essa altura já estavam com os dentes preparados para abocanhar um incauto. Bornal lotado, retornavam para casa. Vida boa essa! 

Geraldo M Paiva - abril/2019

 

domingo, 18 de janeiro de 2026

 

Reescrevendo a história.

Todos estavam ansiosos pelo dia da mudança. Afinal tudo já estava decidido. Meu Pai sempre irredutível, só pensava mesmo em mudar para o Sertão desconhecido. Janeiro de 1959. Verão de pouca chuva, com a proximidade do dia de São Sebastião, padroeiro de Dionísio, ficou decidido que sairíamos após a comemoração, logo no dia seguinte. À essa altura, tudo já estava pronto, embalado. Estava na cidade o “Gran Circo Europeu”, fomos assistir ao espetáculo, talvez por sentir seria rara uma oportunidade igual. Mudança mexe com tudo, inclusive com o emocional, revira tudo, seleciona e que pode levar, o que tem que ser descartado. Quanta coisa que carrega forte carga de recordações é deixada para trás. Tudo acertado, o esperado dia chegou. Complicado os meios de transporte. Só existia caminhões de pequeno porte, tratou um, mas o dono enrolou o dia todo e no final não pode. Chegando à noite um vizinho que possuía um chevrolet já bastante velho animou pegar o frete, apesar de ter que passar em cidades, mas que aquela hora poderia se aventurar. Tudo acomodado na carroceria. Chegou a hora da grande partida. Quando o silêncio pairou sobre a cidade e tudo parecia dormir, arrancamos. Eram vinte e três horas e vinte cinco minutos. O ronco do motor parecia abafar o clima de melancolia e ao mesmo tempo de esperança. A antiga igreja matriz com seu aspecto solene parecia abençoar; breve também ela cederia seu lugar para outra mais moderna. As últimas casas, a capela de Santo Antônio e Dionísio começou a ficar para trás; a sinfonia das águas da cachoeira do ribeirão quebrando o silêncio, a estrada serpenteando as encostas íngremes demandando o alto da serra das Posses; lá chegando, um último olhar, o cruzeiro iluminado, no morro que domina a cidade, destacando-se no meio da escuridão da noite como uma visão de fé e esperança; foi desaparecendo, desaparecendo como se um negro véu o fosse cobrindo gradativamente; como se uma página do livro se dobrasse, um capítulo se encerrasse e outro tivesse o seu começo...

De madrugada chegamos a João Monlevade. Meu pai, com a experiência de muitas mudanças, providenciou o despacho pela Central do Brasil. Uma máquina de costura Singer antiga, uma bicicleta Bristol importada e já bem velha, caixotes de roupas, mudas de plantas e ferramentas além de vasilhame. Embarcamos rumo a BH, o trem serpenteava por entre vales e serras; a cada estação observava a altitude, já passava muito de mil metros, uma paisagem maravilhosa enchia as vistas. Minas Gerais é mesmo encantadora. As cidades históricas enchiam-nos de curiosidade, principalmente Santa Bárbara, Barão de Cocais, Caeté e Sabará. Ao aproximar de Belo Horizonte, na estação de General Carneiro, notamos que a nossa bagagem estava sendo descarregada para ser guardada em outro vagão. Não esqueço que alguém, passageiro do trem, ao ver aqueles caixotes disse: “deve ser mudança de algum baiano”. Coitado do nordestino pau-de-arara parece ser símbolo da retirada. A capital era um encanto de cidade. Com amplas avenidas e muita beleza, os veículos circulavam tranquilos sem o tumulto do trânsito de hoje. Passeamos a noite, pernoitamos e de manhã embarcamos para a parte mais desconhecida da viagem rumo às barrancas do São Francisco. Ao tomar a direção do sertão, uma bifurcação da linha e uma pequena placa indicando “para o sertão”, a vegetação começa mudar, as grandes serras começam dar lugar a uma topografia mais plana. Sete Lagoas, Curvelo, Corinto e adentramos no mais autêntico sertão. A história continua...

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

 

O Beco.

De forma quase despercebida uma rua estreita, diferente das demais, desenrola-se sutilmente, trazendo a lembrança de tempos idos. O calçamento gasto pelo tempo, composto de pedras irregulares, o silêncio romântico, quase poético, diferindo do movimento da urbe agitada, numa teimosia rebelde, parece desafiar o tempo e as mentes. Quantos “causos” por aqui se desenrolaram escondidos na penumbra do tempo. Velho beco, fragmento de saudade, tu permaneces intacto desafiando a memória dos saudosistas. Talvez algum conhecedor das velhas narrativas, desce por ti remoendo as lendas do passado remoto, quando a Vila, perdida nestas plagas, vomitava as riquezas de suas minas. O silêncio místico de seu calçamento, de seus muros e baldrames, representa hoje a memória viva e indelével de uma realidade que ficou perdida no tempo e na saudade... 

Nota: A propósito desse pedacinho escondido de Paracatu.

Geraldo Mendes Paiva – Nov/2024