domingo, 18 de janeiro de 2026

 

Reescrevendo a história.

Todos estavam ansiosos pelo dia da mudança. Afinal tudo já estava decidido. Meu Pai sempre irredutível, só pensava mesmo em mudar para o Sertão desconhecido. Janeiro de 1959. Verão de pouca chuva, com a proximidade do dia de São Sebastião, padroeiro de Dionísio, ficou decidido que sairíamos após a comemoração, logo no dia seguinte. À essa altura, tudo já estava pronto, embalado. Estava na cidade o “Gran Circo Europeu”, fomos assistir ao espetáculo, talvez por sentir seria rara uma oportunidade igual. Mudança mexe com tudo, inclusive com o emocional, revira tudo, seleciona e que pode levar, o que tem que ser descartado. Quanta coisa que carrega forte carga de recordações é deixada para trás. Tudo acertado, o esperado dia chegou. Complicado os meios de transporte. Só existia caminhões de pequeno porte, tratou um, mas o dono enrolou o dia todo e no final não pode. Chegando à noite um vizinho que possuía um chevrolet já bastante velho animou pegar o frete, apesar de ter que passar em cidades, mas que aquela hora poderia se aventurar. Tudo acomodado na carroceria. Chegou a hora da grande partida. Quando o silêncio pairou sobre a cidade e tudo parecia dormir, arrancamos. Eram vinte e três horas e vinte cinco minutos. O ronco do motor parecia abafar o clima de melancolia e ao mesmo tempo de esperança. A antiga igreja matriz com seu aspecto solene parecia abençoar; breve também ela cederia seu lugar para outra mais moderna. As últimas casas, a capela de Santo Antônio e Dionísio começou a ficar para trás; a sinfonia das águas da cachoeira do ribeirão quebrando o silêncio, a estrada serpenteando as encostas íngremes demandando o alto da serra das Posses; lá chegando, um último olhar, o cruzeiro iluminado, no morro que domina a cidade, destacando-se no meio da escuridão da noite como uma visão de fé e esperança; foi desaparecendo, desaparecendo como se um negro véu o fosse cobrindo gradativamente; como se uma página do livro se dobrasse, um capítulo se encerrasse e outro tivesse o seu começo...

De madrugada chegamos a João Monlevade. Meu pai, com a experiência de muitas mudanças, providenciou o despacho pela Central do Brasil. Uma máquina de costura Singer antiga, uma bicicleta Bristol importada e já bem velha, caixotes de roupas, mudas de plantas e ferramentas além de vasilhame. Embarcamos rumo a BH, o trem serpenteava por entre vales e serras; a cada estação observava a altitude, já passava muito de mil metros, uma paisagem maravilhosa enchia as vistas. Minas Gerais é mesmo encantadora. As cidades históricas enchiam-nos de curiosidade, principalmente Santa Bárbara, Barão de Cocais, Caeté e Sabará. Ao aproximar de Belo Horizonte, na estação de General Carneiro, notamos que a nossa bagagem estava sendo descarregada para ser guardada em outro vagão. Não esqueço que alguém, passageiro do trem, ao ver aqueles caixotes disse: “deve ser mudança de algum baiano”. Coitado do nordestino pau-de-arara parece ser símbolo da retirada. A capital era um encanto de cidade. Com amplas avenidas e muita beleza, os veículos circulavam tranquilos sem o tumulto do trânsito de hoje. Passeamos a noite, pernoitamos e de manhã embarcamos para a parte mais desconhecida da viagem rumo às barrancas do São Francisco. Ao tomar a direção do sertão, uma bifurcação da linha e uma pequena placa indicando “para o sertão”, a vegetação começa mudar, as grandes serras começam dar lugar a uma topografia mais plana. Sete Lagoas, Curvelo, Corinto e adentramos no mais autêntico sertão. A história continua...

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

 

O Beco.

De forma quase despercebida uma rua estreita, diferente das demais, desenrola-se sutilmente, trazendo a lembrança de tempos idos. O calçamento gasto pelo tempo, composto de pedras irregulares, o silêncio romântico, quase poético, diferindo do movimento da urbe agitada, numa teimosia rebelde, parece desafiar o tempo e as mentes. Quantos “causos” por aqui se desenrolaram escondidos na penumbra do tempo. Velho beco, fragmento de saudade, tu permaneces intacto desafiando a memória dos saudosistas. Talvez algum conhecedor das velhas narrativas, desce por ti remoendo as lendas do passado remoto, quando a Vila, perdida nestas plagas, vomitava as riquezas de suas minas. O silêncio místico de seu calçamento, de seus muros e baldrames, representa hoje a memória viva e indelével de uma realidade que ficou perdida no tempo e na saudade... 

Nota: A propósito desse pedacinho escondido de Paracatu.

Geraldo Mendes Paiva – Nov/2024