Casos da Novilha Brava
Os nossos principais contadores de
casos são os saudosos vaqueiros. Como era bom ouvir os relatos mais
interessantes da região. Infelizmente quase ou todos já faleceram.
Sô Emídio, respeitável vaqueiro
conhecia muito a região. Contava que morou por trinta anos no retiro da
Novilha.
Alguns casos contados por ele:
-Sacrilégio.
Numa Sexta-Feira Santa, um vaqueiro pede à esposa para matar
e preparar um frango para o almoço. A mulher horrorizada vê-se obrigada a
obedecer ao capricho do marido. Pega o frango, prepara e cozinha muito a
contragosto. Quando tudo pronto, chamou o vaqueiro para almoçar. Como era o
costume, colocou as panelas no rabo do fogão e ficou observando estupefata.
Para o danado parecia que seria o melhor frango de sua vida. Serviu o prato,
sentou-se no degrau da cozinha e de repente, fixou o olhar para a laranjeira do
quintal e paralisou-se. Levantou e cabisbaixo colocou o prato, sem mesmo tocar
na comida. Muito sem graça, tomou o canivete e aproximou-se do portal da
despensa e traçou um cruz. Sua mulher atônita observava tudo calada. O resto do
dia ficou mudo sem dizer sequer uma palavra. Teria tido uma visão? Ninguém
sabe. O que sabemos é que a mulher deu graças a Deus, afinal ele ia cometer o
maior sacrilégio, comer carne na Sexta-Feira Santa.
Sô Emídio contou o caso com detalhes, mostrou onde o
vaqueiro sentou-se e a cruz mal traçada no portal da despensa.
Pé de Garrafa
Nos tempos da companhia, os ingleses mandavam fiscais para
verificar se estava tudo em ordem, sem desvios ou outros problemas. Certa vez
chegou um fiscal inglês, pessoa muito importante e queria que os vaqueiros
fossem com ele pelos pastos para uma vistoria rigorosa. Muito discretos e
calados, embora muito sabidos, bolaram uma para cima do engomadinho. De manhã
arriaram a tropa, montaram o tal inglês num cavalo manso e foram para o campo.
Já tudo combinado, foram para as bandas do Açude Velho. Naquele cascalho
fininho, de repente chamaram a atenção do forasteiro para um rastro diferente,
do tal pé-de-garrafa, monstro perigoso, o qual temiam encontrar. O fiscal pediu
imediatamente que retornassem ao retiro, pois temiam encontrar o tal bicho. Deu
por encerrada sua missão de vasculhar a invernada. À noite, a turma foi gozar
do fiscal e da estratégia para ficar livre do importuno.
O Açude Velho é onde hoje tem a barragem do Sérgio.
O Capão do Meio
Já não existe o Capão do Meio, e poucos sabem de sua
existência. A vegetação com a interferência humana mudou a paisagem. Ficava no
fundo, cercado pela vargem e o lagoão. As grandes enchentes cercavam tudo e
muitas vezes o gado ficava ilhado no Capão. Conta Sô Emídio que quando isso
acontecia, um grupo de vaqueiros destemidos, aproximavam da cheia, penduravam
os arreios nos galhos, arrancavam a própria roupa e também penduravam, entravam
naquele mar cheio de perigos e chegavam ao Capão. Aboiavam o gado que, entrando
na água rumavam para a terra firme, sem a perda de nenhuma rês. Causa admiração
a audácia dos peões e a perícia dos cavalos.
-A misteriosa novilha
brava
Conta-se que nos campos do entorno existia uma novilha
misteriosa. Os vaqueiros costumavam avistá-la nas vargens junto ao gado.
Tentavam trazê-la até à porta, mas em vão. Quando faziam o cerco para tocá-la,
rompia o cerco e desaparecia nas campinas. Segundo contam, a novilha só tinha
três pernas, mas corria feito vento. A verdade é que as lendas vão se
consolidando, muitas vezes quem conta um conto, acrescenta um ponto e por aí se
vai. Seria essa a origem do nome de Novilha Brava? Pense você mesmo.
O Marruá
O Senhor José Ferreira de Almeida, velho vaqueiro dos tempos
da Companhia, contou-me muitos casos. Entre quais o do marruco bravo. Certo dia
foi escalado para trazer à porta um marrueiro muito bravo que estava perdido no
Baixo Gado Bravo. Quando deparou com o bruto tentou tocá-lo sem êxito, entrou
para dentro da empuca e não saiu mesmo. Quando não havia mesmo recurso, sacou
do trinta e oito e foi no meio da testa e adeus valentia do bicho. Os urubus
deram conta do resto. Disse-me que restos de ferragens de arreio encontrados no
cerrado, são acidentes com vaqueiros. Até cruzes haviam perdidas no mato.
A mula pescadora
Conta-se que no Retiro da Novilha
Brava, lá pela década de 50, havia uma mula ruça, muito rebelde, daqueles
animais difíceis de colocar o cabresto. Quando amarrada, tornava-se um
excelente animal, suportando longas caminhadas e lidas por esses campos.
Segundo um vaqueiro, que por sinal também gostava de uma pescaria, a mula
possuía uma qualidade excepcional: era pescadora. Quando à tarde resolvia apanhar
uns peixes, o nosso amigo arreava a besta e punha-se a caminho da lagoa
Ferradura, àquele tempo escondida por espessa vegetação. Havia uma bebida,
local preferido para jogar o anzol, ou melhor, aproximar a pescadora. Numa
habilidade fora do comum, aproximava o focinho na água devagarzinho, uma
piranha bocava e a mula estacava para trás de repente e lançava o peixe longe.
A cena repetia-se tantas vezes até que o vaqueiro, pacientemente, descia da
montaria e ajuntava com cuidado as piranhas, que a essa altura já estavam com
os dentes preparados para abocanhar um incauto. Bornal lotado, retornavam para
casa. Vida boa essa!
Geraldo M Paiva - abril/2019