segunda-feira, 27 de abril de 2026

 Trem de Ferro

Não sei por que a minha infância foi marcada por uma ligação muito grande com o trem de ferro. Não entendia de nada devido a tenra idade, mas vi-me metido numa composição puxada pela pujante Maria Fumaça. O vagão de passageiros com seus bancos gastos, acomodava a garotada, que ora dormia ou ficava olhando a paisagem comentando o que viam. O cheiro do vapor expelido pela grande chaminé causava terrível enjoo. O mais bonito era ver a locomotiva serpenteando pelas montanhas muito adiante dos vagões. O vulto negro com aquela chaminé monstruosa dava a ideia de sua potência. O que mais despertava a curiosidade infantil era quando repentinamente penetrava em um túnel, as luzes quase por encanto acendiam, o suspense até que novamente o caminho prosseguia pelas montanhas das Gerais. A próxima estação era anunciada pelo chefe do trem; o trem começava a desacelerar provocando grande ruído e solavancos, os guarda-freios pendurados na traseira do vagão girando aquela rodinha parecendo um volante para parar o monstro, a curiosidade da meninada obrigava meu pai explicar tudo, inclusive as manobras.   

            A estação do trem sempre constituiu num ponto de grande importância, pois ali se desenrolavam os embarques e desembarques de mercadorias e principalmente pessoas. Na plataforma as chegadas e despedidas, as lágrimas e os lenços brancos agitados na partida de alguém muito querido.

            Viajei em muitos trens, maria fumaça, trem elétrico, locomotiva a diesel; mas confesso que o encanto daquela maria fumaça, com aquela caldeira expelindo aquele vapor enjoativo, com aquela parafernália, com aquele apito ensurdecedor avisando a arrancada, aquele jeito de serpente entrando na toca quando entrando no túnel, aquela marcou.  

Geraldo Mendes Paiva – Dez/2024

 

 

domingo, 26 de abril de 2026

 Brasilândia – 1966

A antiga Sede da Colônia era na época uma Vilazinha com poucas casas, incluindo toscas construções de adobe cobertas de palha de buriti. Apesar da precariedade, já havia um movimento relativamente avançado. Comércio animado, muita movimentação devida os trabalhos da Administração. Chegavam pessoas de muitos lugares para tentar a vida. Sapateiros, fotógrafos, pequenos comerciantes, tentavam dar vida ao lugar. A zona rural já alcançava bastante importância devida à colheita de cereais, a qual era adquirida pelos caminhoneiros, chamados de caminhãozeiros, cuja importância era enorme na movimentação da safra. A Administração, desde os primórdios já tentava organizar as futuras ruas, cabendo ressaltar a importância dos trabalhos do topógrafo Espedito Sebastião Ferreira; seu vulto com os companheiros e os aparelhos já era bastante familiar para os moradores. Pessoa muito afável despertava a confiança de todos, principalmente quando havia litígio, cabia a ele decidir, sendo sua decisão acatada com respeito. Revirando minhas fotos antigas, aquelas que as vezes só nos trazem recordações, encontrei esta tirada pelo fotógrafo Deco, quando os fotógrafos não possuíam os recursos modernos. Apagada pelo tempo, junto ao meu grande e inesquecível amigo (in memoriam) Antônio Abelardo e as bicicletas. Aquele saudoso tempo, depois do cavalo, era na bicicleta que andávamos por essa vasta Colônia. O tempo inexoravelmente passou e Brasilândia não é mais aquela...

Geraldo Mendes Paiva – abril/2026 


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Casos da Novilha Brava

Os nossos principais contadores de casos são os saudosos vaqueiros. Como era bom ouvir os relatos mais interessantes da região. Infelizmente quase ou todos já faleceram.

Sô Emídio, respeitável vaqueiro conhecia muito a região. Contava que morou por trinta anos no retiro da Novilha.

Alguns casos contados por ele:

 

-Sacrilégio.

Numa Sexta-Feira Santa, um vaqueiro pede à esposa para matar e preparar um frango para o almoço. A mulher horrorizada vê-se obrigada a obedecer ao capricho do marido. Pega o frango, prepara e cozinha muito a contragosto. Quando tudo pronto, chamou o vaqueiro para almoçar. Como era o costume, colocou as panelas no rabo do fogão e ficou observando estupefata. Para o danado parecia que seria o melhor frango de sua vida. Serviu o prato, sentou-se no degrau da cozinha e de repente, fixou o olhar para a laranjeira do quintal e paralisou-se. Levantou e cabisbaixo colocou o prato, sem mesmo tocar na comida. Muito sem graça, tomou o canivete e aproximou-se do portal da despensa e traçou um cruz. Sua mulher atônita observava tudo calada. O resto do dia ficou mudo sem dizer sequer uma palavra. Teria tido uma visão? Ninguém sabe. O que sabemos é que a mulher deu graças a Deus, afinal ele ia cometer o maior sacrilégio, comer carne na Sexta-Feira Santa.

Sô Emídio contou o caso com detalhes, mostrou onde o vaqueiro sentou-se e a cruz mal traçada no portal da despensa.  

Pé de Garrafa

Nos tempos da companhia, os ingleses mandavam fiscais para verificar se estava tudo em ordem, sem desvios ou outros problemas. Certa vez chegou um fiscal inglês, pessoa muito importante e queria que os vaqueiros fossem com ele pelos pastos para uma vistoria rigorosa. Muito discretos e calados, embora muito sabidos, bolaram uma para cima do engomadinho. De manhã arriaram a tropa, montaram o tal inglês num cavalo manso e foram para o campo. Já tudo combinado, foram para as bandas do Açude Velho. Naquele cascalho fininho, de repente chamaram a atenção do forasteiro para um rastro diferente, do tal pé-de-garrafa, monstro perigoso, o qual temiam encontrar. O fiscal pediu imediatamente que retornassem ao retiro, pois temiam encontrar o tal bicho. Deu por encerrada sua missão de vasculhar a invernada. À noite, a turma foi gozar do fiscal e da estratégia para ficar livre do importuno.

O Açude Velho é onde hoje tem a barragem do Sérgio.  

O Capão do Meio

Já não existe o Capão do Meio, e poucos sabem de sua existência. A vegetação com a interferência humana mudou a paisagem. Ficava no fundo, cercado pela vargem e o lagoão. As grandes enchentes cercavam tudo e muitas vezes o gado ficava ilhado no Capão. Conta Sô Emídio que quando isso acontecia, um grupo de vaqueiros destemidos, aproximavam da cheia, penduravam os arreios nos galhos, arrancavam a própria roupa e também penduravam, entravam naquele mar cheio de perigos e chegavam ao Capão. Aboiavam o gado que, entrando na água rumavam para a terra firme, sem a perda de nenhuma rês. Causa admiração a audácia dos peões e a perícia dos cavalos.

 

-A misteriosa novilha brava

Conta-se que nos campos do entorno existia uma novilha misteriosa. Os vaqueiros costumavam avistá-la nas vargens junto ao gado. Tentavam trazê-la até à porta, mas em vão. Quando faziam o cerco para tocá-la, rompia o cerco e desaparecia nas campinas. Segundo contam, a novilha só tinha três pernas, mas corria feito vento. A verdade é que as lendas vão se consolidando, muitas vezes quem conta um conto, acrescenta um ponto e por aí se vai. Seria essa a origem do nome de Novilha Brava? Pense você mesmo.

O Marruá  

O Senhor José Ferreira de Almeida, velho vaqueiro dos tempos da Companhia, contou-me muitos casos. Entre quais o do marruco bravo. Certo dia foi escalado para trazer à porta um marrueiro muito bravo que estava perdido no Baixo Gado Bravo. Quando deparou com o bruto tentou tocá-lo sem êxito, entrou para dentro da empuca e não saiu mesmo. Quando não havia mesmo recurso, sacou do trinta e oito e foi no meio da testa e adeus valentia do bicho. Os urubus deram conta do resto. Disse-me que restos de ferragens de arreio encontrados no cerrado, são acidentes com vaqueiros. Até cruzes haviam perdidas no mato.

A mula pescadora

Conta-se que no Retiro da Novilha Brava, lá pela década de 50, havia uma mula ruça, muito rebelde, daqueles animais difíceis de colocar o cabresto. Quando amarrada, tornava-se um excelente animal, suportando longas caminhadas e lidas por esses campos. Segundo um vaqueiro, que por sinal também gostava de uma pescaria, a mula possuía uma qualidade excepcional: era pescadora. Quando à tarde resolvia apanhar uns peixes, o nosso amigo arreava a besta e punha-se a caminho da lagoa Ferradura, àquele tempo escondida por espessa vegetação. Havia uma bebida, local preferido para jogar o anzol, ou melhor, aproximar a pescadora. Numa habilidade fora do comum, aproximava o focinho na água devagarzinho, uma piranha bocava e a mula estacava para trás de repente e lançava o peixe longe. A cena repetia-se tantas vezes até que o vaqueiro, pacientemente, descia da montaria e ajuntava com cuidado as piranhas, que a essa altura já estavam com os dentes preparados para abocanhar um incauto. Bornal lotado, retornavam para casa. Vida boa essa! 

Geraldo M Paiva - abril/2019